Quando o Inter-SM ficou fora da FGF

Quando o Inter-SM ficou fora da FGF

A história da desfiliação de 1979

Em 1979, o Internacional de Santa Maria viveu um dos momentos mais tensos de sua história: durante 14 dias, o clube esteve desfiliado da Federação Gaúcha de Futebol. A história é cheia de reviravoltas, bonecos queimados em praça pública e uma carta que mudou tudo, mas vamos do começo.

A derrota que desencadeou tudo

No dia 22 de julho de 1979, o Inter enfrentou o Gaúcho em Passo Fundo pela 20ª rodada do Campeonato Gaúcho. O placar final foi 1 a 0 para o Gaúcho, com gol de Toninho. Parece um resultado corriqueiro, mas aquela derrota significava algo muito maior: a eliminação do clube da fase decisiva do campeonato, o chamado Octogonal final.

O Inter já havia desperdiçado uma chance importante na rodada anterior, quando perdeu em casa para o Novo Hamburgo. Com a derrota em Passo Fundo, a classificação estava matematicamente fora de alcance.

A tentativa de virar a mesa

O presidente Alvirrubro Jaime Homrich não ficou de braços cruzados. Ele viajou até Porto Alegre com uma proposta ousada: ampliar o Octogonal para um Decagonal, ou seja, incluir mais dois times na fase final. Assim, o Inter poderia entrar.

O presidente da FGF, Rubens Hoffmeister, disse que a ideia só seria viável com a concordância unânime dos oito clubes já classificados: Juventude, Caxias, Esportivo, Novo Hamburgo, São Paulo, Brasil de Pelotas, Grêmio e Internacional de Porto Alegre. No início, quase todos demonstraram simpatia pela proposta, o Grêmio foi a exceção. Mas logo alguns mudaram de ideia, e o plano não foi adiante.

O recurso e a ameaça

Sem conseguir a ampliação da fase final, a diretoria do Inter buscou outra saída: contestar o resultado da partida contra o Gaúcho. A alegação era de irregularidade na súmula do jogo, um atleta teria assinado o documento, mas outro teria entrado em campo. O recurso foi negado.

Foi então que a situação escalou. A direção do Inter ameaçou recorrer à justiça comum, isto é, fora da esfera esportiva. Hoffmeister foi direto: se isso acontecesse, o clube seria desfiliado, com base no Artigo 88 do Estatuto da FGF.

O Inter não recuou. Entrou na justiça e conseguiu uma liminar para impedir o início do Octogonal. A liminar, porém, foi cassada, e Hoffmeister cumpriu a palavra.

A desfiliação oficial

No dia 30 de julho de 1979, a FGF publicou a Nota Oficial 10/79, decretando a desfiliação do Internacional de Santa Maria. O documento, assinado pela diretoria da federação, explicava que o clube havia descumprido o Artigo 88 do Estatuto ao recorrer à justiça comum sem antes esgotar todas as instâncias esportivas disponíveis. Segundo o livro Registros do Futebol Santa-Mariense, Volume 2, do autor Candido Otto da Luz, a nota encerrava com a frase que dá título a este post:

“Cumpra-se, comunique-se, publique-se.”

Santa Maria em polvorosa

A notícia caiu como uma bomba na cidade. Segundo Candido Otto da Luz, houve uma grande mobilização popular: a diretoria do Inter publicou nota oficial de repúdio, uma passeata de protesto tomou as ruas, e bonecos representando Hoffmeister foram queimados em praça pública. Na Câmara de Vereadores, parlamentares chegaram a requerer que o presidente da FGF fosse declarado persona non grata no município.

Os assuntos jurídicos do clube ficaram nas mãos dos advogados José Antonio Brilhante Ustra e Nei Fayet de Oliveira.

O fim do impasse e uma renúncia

Nos bastidores, ficou claro que Hoffmeister esperava um gesto do clube: uma carta pedindo que ele reconsiderasse a decisão. Esse movimento acabou acontecendo, mas não sem custo. O presidente Jaime Homrich não concordou com os termos da carta e, em sinal de protesto, pediu demissão do cargo.

Mesmo assim, a carta foi enviada, e o resultado veio rápido. No dia 14 de agosto de 1979, apenas 14 dias após a desfiliação, a FGF publicou a Nota Oficial 11/79, reconsiderando a resolução anterior e tornando-a sem efeito. O Internacional de Santa Maria estava de volta.

Um episódio para não esquecer

Mais de quatro décadas depois, essa história segue sendo um dos capítulos mais dramáticos do futebol santa-mariense. Em poucas semanas, o clube passou por uma eliminação dolorosa, um impasse jurídico, uma desfiliação inédita, protestos nas ruas e uma crise interna que custou o mandato de seu presidente. E, no fim, voltou à federação pela porta dos fundos, com uma carta que seu próprio presidente se recusou a assinar.

A história está registrada em detalhes no livro Registros do Futebol Santa-Mariense, Volume 2, de Candido Otto da Luz, fonte principal deste post e obra indispensável para quem quer conhecer fundo a trajetória do futebol na nossa cidade.

Texto elaborado com base na obra “Registros do Futebol Santa-Mariense, Volume 2”, de Candido Otto da Luz.